Em Junho de 1594 o galeão "Las Cinque Chagas" entrou nos mares dos Açores. Esta enorme nau trazia um número excessivo de passageiros enriquecidos (comerciantes e aventureiros) que regressavam a Portugal, um complemento de marinheiros e oficiais capitaneados por Dom Francisco de Mello e ainda 400 escravos embarcados em Angola. Havia a bordo à volta de 1.100 pessoas.
A viagem tinha começado há de mais de um ano no Oriente longínquo com paragens na Índia, em Moçambique (onde tinha passado o inverno), e depois de uma passagem difícil pelo Cabo da Boa Esperança, uma curta paragem no Brasil. A sua carga, que já era rica à saída da Índia, aumentou com a recolha de cargas de dois barcos – o "Santo Alberto" e ainda outro, naufragados na costa oriental de África. No manifesto de carga pode ler-se que transportava 3.500.000 cruzados, várias arcas contendo diamantes, rubis e esmeraldas, serviços de porcelana chinesa, e ainda 4 coroas cravejadas de pedras preciosas para serem oferecidas à Rainha de Espanha e a duas Igrejas lisboetas que tinham Imagens de Nossa Senhora como patronas. As fortunas individuais dos passageiros não são mencionadas, mas pode imaginar-se que seriam imensas. A nau "Las Cinque Chagas" foi "Las Cinque Chagas" avistada perto da Ilha do Faial por um esquadrão de três barcos ingleses – o "Sampson", o "Royal Exchange" e o "Mayflower" (que não é o mesmo barco que chegou a Plymouth em 1620) – comandados por Sir George Clifford, Terceiro Conde de Cumberland, que imediatamente a atacaram. Os combates duraram mais de um dia, e o "Las Cinque Chagas", já sem pólvora para se defender, despedaçado e com fogo a bordo, afundou-se. Nos dias seguintes muitos corpos deram à costa da Ilha do Faial e só 13 pessoas do barco naufragado escaparam com vida.
O terceiro tesouro perdido mais valioso no mundo é o espólio do "Las Cinque Chagas". Está avaliado em mais de 2 biliões (dois mil milhões) de dólares americanos (não levando em conta as riquezas transportadas por particulares, o contrabando existente a bordo, e as vastas cargas de seda e especiarias). O naufrágio deu-se a 13 de Junho de 1594 a 18 milhas do Faial, em águas profundas.
A Invencível Armada dirigiu-se para Inglaterra no ano 1488. Todos os barcos disponíveis em Espanha e em Portugal faziam parte da Armada que iria conquistar aquele país. Devido à ação da Marinha Inglesa, das tempestades e da imperícia dos comandantes espanhóis, a maioria das naus e galeões invasores foram destruídos. Os danos foram de tal ordem que só ao fim de três anos de trabalho intenso nos estaleiros da Península Ibérica se conseguiram construir novos barcos em número suficiente para substituir os destruídos. Durante estes três anos, não houve possibilidade de trazer o ouro, a prata e outros tesouros que se acumulavam no Novo Mundo e que tanta falta faziam ao Rei de Espanha para prosseguir as guerras que mantinha na Europa. Recomposta a Marinha Espanhola, foi finalmente enviado ao México um grande número de naus que, mesmo sendo em grande número se mostravam insuficientes para tanta carga – eram 77 barcos no total. Dizem os cronistas que, antes do início da viagem de regresso, as vagas do mar varriam os conveses de muitas das embarcações devido ao peso do tesouro a transportar. Na Corte de Londres fez-se uma estimativa da data em que a frota chegaria aos Açores para reabastecimento e foram enviados 12 galeões ingleses numa missão de corso.
Quando os Reis de Espanha foram informados do iminente ataque inglês ao seu tesouro, deram ordens à Tapeçaria em seda do ataque ao "Revenge Frota do Mediterrâneo para ir aos Açores proteger a carga preciosa que vinha do Novo Mundo. Os espiões ingleses na corte dos Reis Católicos enviaram uma mensagem urgente para a Inglaterra e a Rainha Isabel I despachou com a maior urgência um dos seus mais notáveis galeões a avisar os barcos ingleses do perigo que corriam. Este barco – o "Revenge" – tinha sido a nau capitânia do célebre corsário (pirata para os Espanhóis) Sir Francis Drake. O seu comandante nesta missão foi Sir Richard Grenville. O "Revenge" avisou os seus conterrâneos a tempo – já se viam as velas das naus espanholas no horizonte quando isto aconteceu – e os barcos da Armada Inglesa içaram as suas velas e fizeram rumo a Inglaterra. Sir Richard decidiu proteger os seus compatriotas: avançou sozinho e destemidamente contra uma força composta por 53 barcos espanhóis para os atrasar na perseguição que estavam a mover. Por dois dias o "Revenge" conseguiu resistir a abordagens e até afundou dois barcos inimigos. Mas com metade da sua tripulação morta, muitos feridos graves (incluindo o próprio Sir Richard) e com a promessa de tratamento médico, Sir Richard içou a "bandeira branca" de rendição. O "Revenge" foi trazido para a Ilha Terceira onde se encontravam as duas Frotas espanholas (a do Mediterrâneo e a das Índias) a fazer reparações e a revitalizar. Poucos dias depois, uma enorme tempestade abateu-se sobre os Açores. Independentemente de muitas manobras para evitar a destruição de navios, 12 barcos espanhóis carregados de tesouros afundaram-se, assim como o "Revenge" que não conseguiu sobreviver aos enormes estragos que tinha sofrido. Muitos dos seus marinheiros e Sir Richard Grenville faleceram nos Açores.
Nos anos 1968/9 foram dadas as necessárias autorizações à Marinha Inglesa para pesquisar e procurar o "Revenge" em frente à cidade de Angra do Heroísmo. O mito daquele nome é tão venerado em Inglaterra que um barco com o nome "Revenge" faz constantemente parte das suas Armadas desde o século XVI. O "Revenge" (nau Capitânia de Sir Francis Drake) deve encontrar-se afundado em frente a Vila Nova onde procurou escapar à tempestade que o vitimou. No fim da expedição a Angra do Heroísmo, a Marinha Inglesa afirmou nada ter encontrado ou retirado dos mares açorianos durante a pesquisa que fizeram (no lugar errado). No entanto, nos fins da década de setenta foram postas à venda na Europa muitas peças de joalharia eventualmente identificadas como tendo sido retiradas de barcos afundados nos Açores por constarem em manifestos de navios dos séculos XVI e XVII que se afundaram em frente a Angra do Heroísmo.
Eu tenho em meu poder uma cópia oficial do relatório do "Projecto Revenge" publicado em 1971 por Mr. Sydney Wignall, responsável por aquela operação. Também tenho em meu poder provas e indícios da localização de alguns barcos (não mais que duas dúzias) contendo tesouros e que se afundaram nos mares dos Açores – incluindo dois barcos que se encontram enterrados debaixo da Marina de Angra (embora se tivesse dado conhecimento às autoridades competentes da existência de restos de naus no lugar em que se iria construir aquela Marina, os trabalhos prosseguiram e é impossível hoje recuperá-los.) No entanto, existem pesquisadores que garantem saber a localização de muitas centenas de barcos afundados nos nossos mares e que contêm tesouros.
Contactei durante muitos anos os Governos dos Açores, assim como pedi as necessárias autorizações ao Instituto do Património Arqueológico Subaquático do Ministério da Cultura para se fazerem prospeções e pesquisas com vista a encontrar tesouros naufragados. A resposta e o interesse têm sido sempre negativos e baseados no receio de estes mesmos tesouros desaparecerem (por roubo) depois de recolhidos. Na verdade, a Legislação Portuguesa proíbe a busca e procura de tesouros nos mares dos Açores e exige que no caso de algum objeto ser achado por acaso, ser o mesmo restituído imediatamente ao Ministério da Cultura. Se o não for, o achador arrisca-se a pesadas multas e até prisão. A recompensa por esta honestidade vai até um máximo de €5.000 euros.
Os tesouros dos mares dos Açores têm sido salvaguardados por se encontrarem a profundidades muito elevadas. Para que estas profundidades sejam atingidas é necessário utilizar equipamentos muito sofisticados e de grande custo tanto para os adquirir como para os operar. As entidades que têm o poder de dar estas autorizações escudam-se na possibilidade da Marinha Portuguesa fazer este trabalho num futuro próximo. O outro elemento dissuasor é a legislação em vigor que exige que a iniciativa e os pedidos de autorização sejam feitos exclusivamente por ume instituição académica. Esta mesma legislação proíbe terminante de se pesquisarem lugares no mar (e em terra) que possam conter riquezas do passado. As Universidades não possuem os meios económicos para financiar projetos desta complexidade e a Marinha Portuguesa tem outros deveres e obrigações que nunca incluirão a pesquisa e a prospeção de tesouros.
A ciência de prospeção submarina está a avançar a passos muito largos. Jacques Custeau começou a mergulhar com um aparato primitivo há pouco mais de meio século. Hoje já se visita regularmente o "Titanic", que se encontra a 3.800 metros de profundidade. Existem companhias profissionais de mergulho com equipamento de controlo remoto capazes de submarino de controlo remoto localizar quantidades muito pequenas de metal no fundo dos mares. E existem equipamentos especializados que transportam mergulhadores a profundidades imensas. O perigo do roubo está sempre presente na possibilidade de operações submarinas clandestinas que podem ser muito difíceis de detetar. Pode ainda criar-se legislação na União Europeia que invalida o que é proibido fazer-se presentemente em Portugal e estes tesouros serem retirados para outros países.
O que tenho proposto é a criação de uma organização nos Açores (totalmente responsável por proteger os nossos interesses) que contracte arqueólogos subaquáticos, pesquisadores de documentos antigos e companhias de mergulho especializadas para que se inicie uma operação de pesquisa e recolha de tesouros e outros artigos de interesse que se encontrem nos mares dos Açores. Devido às grandes profundidades onde se encontram os destroços e restos de naufrágios e devido à baixa temperatura e à falta de oxigénio destas águas, espera-se encontrar objetos em bom estado de conservação – uma autêntica Cápsula de História que permitiria abrir museus que conteriam não só peças de joalharia mas também exemplos do que era utilizado no dia-a-dia de há muitos séculos: instrumentos de navegação, equipamentos médicos e cirúrgicos, armas e até artigos pessoais. Por outro lado, estas riquezas poderiam ser utilizadas para melhorar as condições financeiro-económicas no nosso Arquipélago e até nas nossas Comunidades.
Com destroços contendo valores estimados em biliões de dólares e barcos que foram arrastados para o fundo do mar devido ao peso em ouro e prata que carregavam, brevemente haverá quem os traga para a superfície. A bem ou a mal...